Comece pela imagem. Uma foto da Amazônia tirada do espaço é bonita e quase inútil para quem quer entender o fogo. Verde por todo lado, nuvem, rio, mais verde. Onde, exatamente, queimou? E quando? E foi acidente ou foi alguém ateando? A floresta não responde para quem só olha.
Ane Alencar passou a carreira fazendo a floresta responder.
A sacada dela tem nome quase literário: cicatrizes do fogo. A ideia é simples de explicar e difícil de executar. Quando o fogo passa, ele deixa um rastro na vegetação que o satélite consegue captar, uma assinatura que persiste depois das chamas apagarem. Aprender a reconhecer essa assinatura na imagem é como aprender a ler uma cicatriz na pele e saber que ali houve um corte, quando foi, que tamanho tinha. Ela ensinou o satélite a fazer isso em escala de bioma inteiro.
E aqui entra o achado que muda a conversa. No doutorado, Ane refez o mapeamento do fogo na Amazônia, do zero, com esse método. O resultado contrariou a leitura corrente: 50% da área queimada que ela mapeou entre 1995 e 1999 tinha origem acidental. Metade. Não era tudo desmatamento criminoso planejado, como o senso comum sugeria. Boa parte era fogo que escapou, que se alastrou, que ninguém quis exatamente daquele jeito. Para quem desenha política pública de combate ao fogo, a diferença entre “tudo é crime” e “metade é acidente” não é detalhe. Muda o que você faz no dia seguinte.
De onde veio essa cabeça
Não veio de uma escola de engenharia, e isso vale dizer com clareza porque é fácil supor o contrário quando alguém trabalha com satélite, código e dados.
Ane é geógrafa. Graduou-se em Geografia pela Universidade Federal do Pará, a UFPA, uma federal do Norte. A geografia é a porta certa para quem quer entender território, e território é exatamente o que arde. Mas, sozinha, a graduação não dava as ferramentas para ler o fogo por satélite. Faltava a parte técnica.
Ela foi atrás dela. Fez mestrado em Sensoriamento Remoto Ambiental e Sistema de Informação Geográfica, o tal SIG, na Universidade de Boston. Sensoriamento remoto é o nome formal de “tirar informação de uma imagem captada à distância”, o satélite olhando a Terra. SIG é a tecnologia de cruzar camadas de dados sobre um mapa, fogo, chuva, estradas, desmatamento, tudo sobreposto, tudo conversando. Foi nesse mestrado que a geógrafa virou também uma leitora técnica de imagem orbital.
Depois veio o doutorado em Recursos Florestais e Conservação pela Universidade da Flórida — onde ela aplicou tudo isso à Amazônia e fez o tal remapeamento do fogo. Repare no arco: geografia para entender o território, sensoriamento remoto e SIG para enxergá-lo de cima, ciência florestal para interpretar o que estava vendo. Três peças que, juntas, montam uma especialista que poucos lugares do mundo formam.
O ponto de virada está na ponte entre dois mundos
A trajetória dela tem um ensinamento que serve para muita gente que está decidindo o que estudar agora.
Ane não escolheu entre “área ambiental” e “área de tecnologia”. Ela juntou as duas. A pergunta dela era ambiental, e urgente: o que está pegando fogo na Amazônia e por quê? A ferramenta para responder era tecnológica: imagem de satélite, processamento de dados, geoprocessamento. Quem só tem a pergunta fica dependendo de outra pessoa para enxergar. Quem só tem a ferramenta não sabe o que procurar. Ela tem as duas, e por isso consegue fazer a floresta responder.
Esse cruzamento explica os reconhecimentos que vieram depois. Em 2018, a revista científica Fire a destacou como uma das líderes mundiais na ciência sobre o fogo. E em 2022 ela se tornou a primeira pesquisadora da América Latina a entrar na lista das Mulheres Líderes em Aprendizado de Máquina para Observação da Terra — o tal machine learning aplicado a ler a Terra por satélite. Vale parar nessa segunda. Uma geógrafa formada no Pará reconhecida internacionalmente em aprendizado de máquina para observação da Terra. O caminho dela atravessou exatamente o território que hoje chamamos de ciência de dados.
O que ela move hoje
Ane Alencar é Diretora de Ciência do IPAM, o Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia, onde é cientista há 30 anos. Hoje lidera uma equipe de cerca de 60 pessoas. Não é mais a pesquisadora solitária diante de uma imagem de satélite; é quem coordena gente que faz isso em escala.
E faz parte de uma engrenagem que talvez você já tenha visto citada sem saber o nome de quem está por trás. Ela lidera as equipes de Cerrado e Fogo no consórcio MapBiomas — a iniciativa que mapeia o uso e a cobertura do solo no Brasil inteiro e cujos números aparecem o tempo todo no noticiário ambiental. Quando você lê “área queimada no Brasil cresceu tanto por cento”, boa parte da metodologia que produz esse dado tem a digital de gente como ela. As cicatrizes do fogo que ela aprendeu a ler no doutorado viraram, com o tempo, infraestrutura nacional de monitoramento.
Onde esse caminho começa
A parte mais útil da história dela, para quem está escolhendo curso agora, é que o caminho não exige nascer gênio nem morar perto de Harvard. Exige juntar uma pergunta que te importa com as ferramentas que respondem a ela.
E essas ferramentas têm nome, têm aula, têm grade curricular. Sensoriamento remoto, SIG e geoprocessamento, ciência de dados, processamento de imagem, um pouco de programação — é exatamente o conjunto que Ane Alencar foi reunindo ao longo de mestrado e doutorado, e é o mesmo conjunto que hoje você estuda nos cursos de Tecnologia da Informação, Ciência de Dados e Geoprocessamento da Itamazônia. A diferença é que você não precisa montar esse quebra-cabeça em três países, como ela montou nos anos 1990 e 2000. Dá para começar perto de casa, no Norte, onde a floresta que precisa ser lida fica logo ali.
Ane provou que dá para olhar a Amazônia de cima e entender o que está acontecendo embaixo. As ferramentas que ela usou para isso são aprendíveis. O território que pede para ser lido continua aqui, esperando a próxima pessoa que decida aprender a enxergá-lo.
Fontes
- •IPAM — Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (ipam.org.br): cargo de Diretora de Ciência, 30 anos de atuação, liderança de equipe de ~60 pessoas, equipes de Cerrado e Fogo no MapBiomas.
- •Confea — Conselho Federal de Engenharia e Agronomia: trajetória e formação.
- •Conexão Planeta: conceito de "cicatrizes do fogo", remapeamento do fogo no doutorado, descoberta de que 50% da área queimada entre 1995 e 1999 teve origem acidental, reconhecimentos de 2018 (revista Fire) e 2022 (lista de Mulheres Líderes em Aprendizado de Máquina para Observação da Terra, primeira da América Latina).
- •Escavador: formação acadêmica (graduação em Geografia pela UFPA, mestrado em Sensoriamento Remoto Ambiental e SIG pela Universidade de Boston, doutorado em Recursos Florestais e Conservação pela Universidade da Flórida).
- •Publicado originalmente em itamazonia.com.br