Comece pelos fatos, porque eles se sustentam sozinhos.
Remilly é da zona rural de Wall Ferraz, no interior do Piauí. Estudou em escola pública, fez cursinho e prestou o ENEM três vezes. A primeira aprovação em Medicina veio em janeiro de 2026, na Universidade Federal do Delta do Parnaíba (UFDPar). A segunda saiu em 14 de julho, na Universidade Federal do Piauí (UFPI), no campus de Floriano — a primeira turma de Medicina daquela cidade. Duas vagas de Medicina em federal, em dois processos seletivos diferentes, entre janeiro e julho.
Conferimos o campus na lista oficial da UFPI antes de publicar, porque várias republicações trocaram o nome da universidade na segunda aprovação. O detalhe importa: a vaga nova é da UFPI, em Floriano — não da UFDPar.
E vale uma honestidade que o Boletim não abre mão: “segunda aprovação” não é segunda tentativa nem sinal de reprovação. É a segunda vez que ela conquista uma vaga de Medicina numa federal, em seleções distintas. Ela permaneceu em Parnaíba para começar o curso; as aulas em Floriano estão previstas para agosto.
O método por trás da história de emoção
O que torna essa trajetória digna de perfil não é a lágrima da avó — é o que Remilly fez com o tempo que tinha, que era pouco.
“As redes me atrapalhavam”, ela contou. “Às vezes, principalmente no ensino médio, eu só tinha quatro horas para estudar em casa, tinha que aproveitar o máximo.” Não é frase de coach. É gestão de um recurso escasso: quem estuda em escola pública raramente tem o dia inteiro livre. A diferença esteve em proteger quatro horas por dia e usá-las inteiras.
E teve a decisão de não se acomodar. Em 2024, ainda no terceiro ano, Remilly passou em Medicina Veterinária e em Engenharia Civil. Ter aprovação na mão e continuar mirando o alvo original é, talvez, uma das decisões mais difíceis de uma trajetória de vestibular — e a menos glamourosa de contar.
“Fiquei pensativa sobre as duas cidades, então decidi tentar quando o processo seletivo abriu”, disse, sobre a segunda aprovação. Podia ter parado na primeira. Não parou.
A avó, Judite Pacheco, resumiu o que muita família do interior sente quando um filho ou neto rompe uma barreira que parecia grande demais: “Uma satisfação. Que Deus te acompanhe e ilumine seus passos, que te dê tudo de bom na sua vida.” É o tipo de frase que não cabe em métrica de engajamento, mas explica por que a história viralizou.
Onde esse caminho começa
Tem um dado de acesso que a emoção do vídeo esconde. A Medicina que Remilly conquistou em Floriano é a primeira turma pública do curso na região sul do Piauí — antes, não havia. Foram 30 aprovados, num edital que somou 106 vagas entre Medicina, Psicologia e Inteligência Artificial, com metade reservada a quem cursou o ensino médio integral em escola pública e às cotas. As portas federais quase nunca abrem uma vez só: há mais de uma seleção por ano, como já mostramos ao explicar o Sisu+. Quem entende que a admissão federal se dá em rodadas é quem tem fôlego para tentar de novo.
E é aqui que a história de Remilly deixa de ser sobre Medicina e passa a valer para você, que está decidindo o que estudar. O que a levou à vaga não foi talento místico: foi um método simples e repetido — proteger poucas horas de estudo, não largar o alvo por causa de uma aprovação “quase”, e voltar ao processo quando ele reabre. Esse método serve para quem mira engenharia, tecnologia, licenciatura ou um curso técnico tanto quanto serviu para quem mirava Medicina.
“Façam muitos simulados, estudem e treinem para a prova e peçam discernimento a Deus nos estudos”, ela recomendou a quem vem atrás. O resto — a escolha do curso, a instituição, a primeira matrícula — é decisão de cada um. Mas o primeiro passo é sempre o mesmo: começar, e não parar na primeira aprovação “quase”.
Esta é mais uma trajetória que perfilamos na seção Quem Move — depois de contar como o paleontólogo Carlos D’Apolito aprendeu a ler o chão do Acre para achar a maior tartaruga de água doce que já existiu.
Fontes: Comunicado oficial da UFPI · ANDIFES e Alagoas 24 Horas · Portais regionais do Piauí.
Fontes
- •Comunicado oficial da UFPI — resultado do vestibular com 106 vagas (Medicina em Floriano, Psicologia e Inteligência Artificial), lista de aprovados e calendário de matrículas (Edital PREG/UFPI nº 35).
- •ANDIFES e Alagoas 24 Horas — republicações da reportagem sobre a dupla aprovação e o vídeo com a avó (creditando o G1 Piauí).
- •Portais regionais do Piauí (Somos Notícia, WebPiauí, Portal Clube News) — cobertura da primeira turma de Medicina de Floriano e confirmação da lista oficial da UFPI.
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