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Boletim Itamazônia · 18 de junho de 2026 · Rio Branco/AC

Quem Move

O paleontólogo que aprendeu a ler o chão — e achou no Acre a maior tartaruga de água doce que já existiu

Embaixo do leito seco de um rio em Assis Brasil dormia um casco de quase dois metros de largura. Quem o trouxe à luz não foi um museu europeu nem uma expedição estrangeira: foi Carlos D'Apolito Júnior, que à época era professor de uma universidade federal do Acre e passou a carreira aprendendo a ler o que a Amazônia enterra. O caminho até aquele casco não começou na paleontologia. Começou na biologia, passou pela botânica e foi parar numa coisa minúscula: pólen fóssil.

Comece pelo achado, porque ele é grande no sentido literal.

No leito seco do Rio Acre, na região da Boca dos Patos, em Assis Brasil — quase na fronteira com o Peru —, a equipe de D’Apolito encontrou um pedaço de carapaça que, mesmo incompleto, tinha cerca de 1,70 metro de largura. Para você ter ideia, é mais largo que um carro popular. Os pesquisadores estimam que o bicho inteiro passaria de três metros de comprimento. O casco era de uma Stupendemys geographicus, descrita pela ciência como a maior tartaruga de água doce que já existiu. Ela nadava por aqui no Mioceno, num período que a equipe estima entre 10,8 e 8,5 milhões de anos atrás — uma estimativa, vale dizer, porque a datação fina do material ainda estava em curso.

Aqui vale uma honestidade que separa o Boletim do clickbait: D’Apolito não descobriu a espécie. A Stupendemys já era conhecida da ciência — os exemplares mais famosos saíram da Venezuela e da Colômbia. O que o professor e a equipe fizeram foi outra coisa, e não menos importante: encontraram o registro dela aqui, no sudoeste da Amazônia brasileira, num casco de dimensões excepcionais. É a diferença entre inventar uma palavra e ser o primeiro a achá-la escrita numa pedra do seu quintal.

Por que um caçador de pólen reconhece um casco gigante

Esta é a parte que intriga. O trabalho de D’Apolito, no dia a dia, não é desenterrar bichos enormes. É palinologia: o estudo do pólen fóssil, grãos microscópicos que ficaram presos nas camadas de rocha por milhões de anos. Parece o oposto de uma tartaruga de três metros. Mas é o mesmo ofício, em escalas diferentes.

Quem estuda pólen fóssil aprende, antes de tudo, a ler o chão: a entender que cada camada de terra é uma página de um livro de tempo, e que cada página guarda pistas de como era o mundo quando se formou. Você treina o olho para perceber o que está fora do lugar, para reconhecer numa parede de barro a marca de um clima antigo, de um rio que mudou de curso, de uma vida que passou. Quem desenvolve esse olhar não vê só pólen. Vê a história inteira que a terra está contando — inclusive quando o que aparece é um casco do tamanho de uma mesa.

Quando fez a descoberta, D’Apolito era professor da Universidade Federal do Acre e dirigia lá o Laboratório de Pesquisas Paleontológicas, onde fósseis das formações geológicas da Amazônia ocidental são preparados e estudados. O casco da Stupendemys foi levado para o campus-sede da UFAC, em Rio Branco, para análise e para entrar no acervo. Ou seja: o achado não saiu do Acre. Ficou onde foi feito, numa federal do Norte.

De onde veio essa cabeça

Não veio de uma única formação, e isso vale destacar porque o caminho dele desmonta a ideia de que ciência é uma linha reta.

D’Apolito é biólogo de graduação — formou-se em Biologia pela Universidade Federal da Grande Dourados, no Mato Grosso do Sul (a mesma onde, hoje, ele é professor). Depois fez mestrado em Botânica no INPA, o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, em Manaus — foi ali, no coração da pesquisa amazônica, que ele mergulhou no mundo das plantas e do pólen. E foi buscar o doutorado longe: Geociências na Universidade de Birmingham, na Inglaterra, onde a botânica encontrou a geologia e nasceu o palinólogo que hoje lê o tempo profundo da floresta.

Repare no arco. Biologia para entender a vida. Botânica e palinologia para enxergar a vida que virou pó e ficou guardada na rocha. Geociências para ler a própria rocha. Três peças — todas dentro do guarda-chuva das ciências biológicas e das ciências da terra — que, juntas, formam um cientista capaz de olhar para um leito seco de rio no Acre e enxergar o que ninguém mais enxergaria. Não é sorte. É repertório.

O que a história dele ensina para quem decide o que estudar agora

Tem um recado aqui para quem está escolhendo carreira e acha que precisa decidir cedo demais entre “uma coisa” e “outra”.

D’Apolito não escolheu entre biologia e geologia. Ele foi somando. Cada formação acrescentou uma lente, e a soma das lentes é que faz a diferença. O achado da maior tartaruga de água doce do mundo no Acre não é obra de um especialista estreito — é obra de alguém que juntou áreas que pareciam distantes e, com isso, passou a ver mais.

E tem o recado regional, sem folclore: a ciência que reconstrói o passado da Amazônia está sendo feita na Amazônia, por gente formada para isso, com laboratório, financiamento de pesquisa e fóssil guardado em casa. O projeto que sustenta esse trabalho — “Novas Fronteiras no Registro Fossilífero da Amazônia Sul-Ocidental”, tocado por D’Apolito com a professora Annie Schmaltz Hsiou, da USP — é financiado pela iniciativa Amazônia+10, com apoio da FAPESP e da fundação de pesquisa do próprio Acre, a Fapac. Não é o Norte como cenário exótico. É o Norte como laboratório.

A maior tartaruga de água doce que já existiu esperou quase nove milhões de anos no chão do Acre. Quem soube ler esse chão foi um professor que, de tanto estudar o invisível, aprendeu a reconhecer o gigante.

Esta não é a primeira cabeça do Norte que perfilamos por aqui: na seção Quem Move, já contamos como a geógrafa Ane Alencar ensinou o satélite a enxergar o fogo da Amazônia.

Fontes: Jornal da USP · Agência FAPESP · UFAC · Bionorte e currículo público · Instituto Serrapilheira.

Fontes

  • Jornal da USP — reportagem sobre o achado do fóssil pela equipe da UFAC e da USP (27/06/2025).
  • Agência FAPESP — detalhamento das dimensões do casco, transporte para Rio Branco e financiamento (28/07/2025).
  • UFAC — nota oficial sobre a assinatura dos termos da iniciativa Amazônia+10 (05/03/2025).
  • Bionorte e currículo público — formação acadêmica e linhas de pesquisa de Carlos D'Apolito Júnior.
  • Instituto Serrapilheira — perfil do pesquisador (atuação atual e linhas de pesquisa de Carlos D'Apolito).
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