Existe um óculos de realidade virtual cuja estrutura é moldada em fibra de miriti — a mesma palmeira com que o artesanato paraense faz brinquedos de Círio. A empresa se chama MiritiBoard VR, e ela não está sozinha. Divide endereço com uma startup que extrai óleos e manteigas amazônicos para indústria, outra que pesquisa compostos bioativos do cacau, uma de tecnologia educacional, uma de biodiversidade, uma de engenharia ambiental e uma de serviços médicos. Sete nomes, sete áreas diferentes, um mesmo lugar.
Esse lugar é o Parque de Ciência e Tecnologia do Guamá, em Belém. E ele já existe há mais tempo do que a maioria das pessoas imagina.
O que é, exatamente
O Parque do Guamá é um condomínio de inovação: um espaço físico onde empresas de base tecnológica trabalham perto de laboratórios e de pesquisadores universitários. A ideia, que é velha conhecida no Sul e no Sudeste, é simples de explicar e difícil de fazer dar certo — você junta quem pesquisa, quem tem laboratório e quem quer transformar isso em negócio, no mesmo quarteirão, e deixa a proximidade fazer o trabalho.
Em números, o parque tem 72 hectares de área, dois prédios (um chamado “Inovação”, outro “Empreendedor”), onze laboratórios e 32 empresas instaladas. É gerido em parceria por duas instituições federais: a Universidade Federal do Pará (UFPA) e a Universidade Federal Rural da Amazônia (Ufra). Foi inaugurado em 2010 — ou seja, está em operação há mais de uma década, tempo suficiente para deixar de ser promessa e virar coisa que funciona.
O que chama atenção não é o tamanho do terreno. É a variedade do que sai de lá. Veja a lista de quem está dentro:
- MiritiBoard VR — óculos de realidade virtual com estrutura de fibra de miriti.
- Laboratório de Óleos da Amazônia (LOA) — óleos e manteigas amazônicos.
- BioTec-Amazônia — pesquisa em biodiversidade.
- CVACBA — compostos bioativos do cacau.
- Ecoset — engenharia e meio ambiente.
- Inteceleri — tecnologia educacional (edutech).
- MedBolso — serviços médicos.
Repare no que essa lista tem de incomum. Não é um parque só de software, nem só de biotecnologia. Tem hardware de VR, tem química de produtos naturais, tem engenharia ambiental, tem edtech, tem saúde digital. É um retrato de uma economia regional inteira tentando encontrar versão tecnológica de si mesma — o cacau virando composto bioativo, a palmeira virando carcaça de eletrônico, o óleo de copaíba virando insumo industrial padronizado.
Por que isso importa além de Belém
A tentação, ao falar de um parque tecnológico na Amazônia, é tratar como curiosidade simpática — “que bonitinho, eles também fazem”. Esse enquadramento é errado, e vale desarmá-lo logo.
Primeiro, porque o problema que essas empresas atacam é nacional, às vezes global. Padronizar óleos amazônicos para a indústria cosmética e farmacêutica é um gargalo real de quem compra esses insumos no mundo todo. Extrair valor do cacau além do chocolate interessa a qualquer cadeia agroindustrial. Fazer hardware de VR mais barato e com material local é uma resposta a uma indústria que, hoje, depende quase inteira de importação. Nenhuma dessas frentes é folclore — são problemas técnicos com mercado do outro lado.
Segundo, porque há uma lógica econômica específica aqui que não se reproduz em São Paulo. As matérias-primas estão na porta. O miriti, o cacau, as oleaginosas, a biodiversidade que a BioTec-Amazônia estuda: nada disso precisa ser trazido de fora, porque já é da região. Quando a inovação acontece perto da matéria-prima, encurta cadeia, reduz custo e cria a chance de o valor ficar onde o recurso nasce, em vez de ser exportado em bruto e voltar caro como produto acabado. Essa é a aposta de fundo de um parque assim.
E há um terceiro motivo, mais simples: 2025 colocou Belém no mapa. Com a cidade sediando a COP30, o governo federal anunciou R$ 11 milhões para o parque — recurso destinado a novas construções, entre elas um prédio batizado de “Sustentabilidade” e um auditório. É dinheiro que chega num momento de visibilidade rara, e que pode acelerar a próxima fase. O que vem depois desse investimento ainda está sendo construído, literalmente.
Quem fez isso acontecer
A origem do Parque do Guamá é menos heroica e mais reconhecível do que se imagina. Ele nasceu de um grupo de professores da UFPA que enfrentava um problema concreto: as pesquisas geravam resultados com potencial de virar negócio, mas faltava um caminho para que isso de fato acontecesse. Um bom resultado de laboratório, sozinho, não vira empresa. Precisa de espaço, de estrutura, de gente que saiba transformar conhecimento em produto.
Esses professores foram atrás de construir esse caminho. O parque é a resposta institucional àquela pergunta: como fazer a pesquisa sair da prateleira. UFPA e Ufra entraram como as instituições gestoras, somando duas tradições — uma universidade generalista forte e uma universidade rural com expertise em recursos naturais da região, o que ajuda a explicar por que tanta empresa do parque trabalha com biodiversidade, óleos e cacau.
Vale guardar esse detalhe, porque ele desfaz um mito. A inovação que aparece nessa lista de 32 empresas não caiu de paraquedas, nem foi importada de um centro de excelência distante. Ela foi puxada por professores e pesquisadores formados e atuantes na própria região, que decidiram criar a estrutura que faltava. É construção local, com nomes e instituições verificáveis.
O que vem depois
Com o aporte de 2025 e as obras do prédio “Sustentabilidade” a caminho, o Parque do Guamá entra numa fase de expansão. Mais espaço significa, em tese, mais empresas, mais laboratórios e mais gente trabalhando no encontro entre ciência e mercado em Belém. A medida real desse salto só vai aparecer nos próximos anos — em quantas empresas a mais o parque abriga, e em quanto do que produzem chega ao mercado de fato.
Mas há uma constatação que já dá para fazer hoje, e ela é a parte que mais nos interessa.
Tudo o que descrevemos aqui — o VR de miriti, a química dos óleos, a edtech, a engenharia ambiental, a análise dos compostos do cacau, os sistemas da saúde digital — é trabalho de gente com formação técnica. Engenharia, tecnologia da informação, ciência de dados, química aplicada. Não existe parque tecnológico sem essas pessoas, e elas não surgem prontas: vêm de cursos, de laboratórios, de uma trajetória que começa numa sala de aula.
Esse é o ponto que o Boletim faz questão de marcar, sem rodeio. A inovação que sai do Norte é feita, em boa parte, por quem se formou no Norte. É exatamente para esse caminho que existem os cursos de Engenharia, Tecnologia da Informação e Dados da Itamazônia: formar, aqui, a gente que vai construir a próxima MiritiBoard VR, o próximo LOA, a próxima empresa que ainda nem tem nome. Se a engenharia e a tecnologia da região te interessam de verdade, é desse lado da história que se começa.
O Parque do Guamá mostra que dá. Falta gente formada para fazer mais.
Fontes
- •Folha de Pernambuco — reportagem sobre o Parque de Ciência e Tecnologia do Guamá (Belém).
- •Universidade Federal do Pará (UFPA) e Universidade Federal Rural da Amazônia (Ufra) — instituições gestoras do parque.
- •Publicado originalmente em itamazonia.com.br