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Boletim Itamazônia · 17 de junho de 2026 · Rio Branco/AC

Decifra

O qubit que vive 20 segundos — e o motivo de metade dos físicos não acreditar

A Microsoft diz ter feito um chip quântico mil vezes mais confiável. Em horas, físicos de peso responderam que o anúncio não prova a única coisa que precisava provar.

Vamos decifrar o que aconteceu no dia 2 de junho, porque ele tem as duas camadas que a melhor ciência costuma ter: um avanço técnico que impressiona de verdade e uma disputa que ainda não terminou. A Microsoft apresentou o Majorana 2, sua segunda geração de chip quântico topológico, com uma alegação central que vale entender bem antes de comemorar ou descartar. E a reação de pesquisadores independentes, quase imediata, é tão importante quanto o anúncio em si. Para quem trabalha com tecnologia, este é o tipo de notícia em que saber ler o número importa mais do que o número.

Antes de chegar à briga, dois conceitos. Sem eles, o resto vira manchete vazia.

Primeira camada: o que é um qubit e por que ele “morre”

Um bit comum guarda 0 ou 1. Um qubit é a versão quântica: enquanto está “vivo”, ele pode representar 0 e 1 ao mesmo tempo, e é dessa propriedade que vem o poder de cálculo de um computador quântico. O problema é que esse estado é frágil. Calor, vibração, qualquer perturbação do ambiente derruba o qubit de volta a um valor comum. Os físicos chamam isso de decoerência.

O tempo de coerência é, em linguagem direta, quanto tempo o qubit consegue manter o estado quântico antes de “morrer”. E aqui está a melhor analogia para o que a Microsoft anunciou: um qubit que mantém o estado por 20 segundos em vez de 12 milissegundos é a diferença entre rabiscar uma conta antes do papel pegar fogo e ter tempo de fazer a conta inteira com calma. Quanto mais tempo, mais operações cabem antes do erro. Saltar de milissegundos para segundos não é um ajuste fino. É uma mudança de ordem de grandeza.

Segunda camada: o que é um qubit “topológico”

Quase todo mundo na corrida quântica luta contra a fragilidade depois que ela aparece, corrigindo erros no software. A aposta da Microsoft é outra: construir um qubit que já nasça mais resistente.

A ideia é codificar a informação em uma propriedade chamada topológica. Pense em um nó dado numa corda. Você pode chacoalhar a corda, esticar, encolher, e o nó continua lá, porque ele é uma propriedade da forma como a corda está amarrada, não de onde cada ponto da corda está. A teoria diz que, se a informação do qubit estiver “amarrada” desse jeito, em estados conhecidos como Majorana zero modes, pequenas perturbações não a destroem com facilidade. Seria um qubit mais estável por construção.

Bonito na teoria. O ponto é que provar que esses estados realmente existem no chip é justamente o centro de toda a disputa.

A alegação: o que a Microsoft colocou na mesa

No Build 2026, a Microsoft anunciou que o Majorana 2 é 1.000 vezes mais confiável que o Majorana 1. O número que sustenta isso é o tempo de coerência: cerca de 20 segundos por qubit, alguns chegando a perto de um minuto, contra os 1 a 12 milissegundos da geração anterior.

A receita técnica para esse ganho tem uma troca concreta de material: a Microsoft substituiu os supercondutores de alumínio por chumbo. O chumbo blinda melhor os qubits contra as perturbações externas que provocam erros, e é essa blindagem que ajuda o estado quântico a sobreviver por mais tempo. O chip atual trabalha com um array de quatro qubits, e a empresa fala em uma visão de “milhões de qubits”. Parte do desenvolvimento foi feita com o Microsoft Discovery, plataforma de IA agêntica de pesquisa da própria empresa. A meta declarada é entregar um computador quântico escalável até 2029, metade do prazo que a Microsoft estimava antes.

Se tudo isso se confirmar, é grande. O “se” é o resto desta edição.

A contestação: o que os físicos responderam em horas

Pesquisadores proeminentes reagiram quase imediatamente, e a objeção não é sobre o tamanho do número. É sobre o que o número prova.

Henry Legg, da Universidade de St. Andrews, resumiu o problema da forma mais didática possível: você pode ver algo incrível em um dispositivo e nunca mais ver de novo, porque era só um artefato aleatório. Ele aponta que os dados vêm de apenas alguns casos presumidos, em um único dispositivo.

Sergey Frolov, da Universidade de Pittsburgh, foi na mesma direção: este novo preprint não está apoiado em um histórico de pesquisa que possa ser considerado base sólida. Ele observa, ainda, que o preprint anterior segue não publicado.

A objeção central tem nome: falta de reprodutibilidade. Em ciência, um resultado só vira evidência quando outro grupo, em outro laboratório, com outro equipamento, consegue obter o mesmo. Um único dispositivo, com poucos casos, não é uma base sólida — é um indício. E a crítica é que a metodologia apresentada está abaixo do padrão exigido pelos periódicos de topo. Sobre a geração anterior, a Nature já havia registrado que os resultados não representavam evidência dos tais Majorana zero modes.

Repare na assimetria. O ganho de tempo de coerência é mensurável e impressionante. A existência do qubit topológico, que é a aposta inteira da Microsoft, é o que continua sem prova aceita pela comunidade.

Por que isto soa familiar: o capítulo de 2021

Esta não é a primeira vez que a história se desenha assim, e é por isso que os físicos foram tão rápidos.

Em 2021, a Microsoft retratou um artigo publicado na Nature depois que especialistas mostraram que os dados podiam ser explicados por imperfeições do material, e não por um qubit topológico de verdade. Em fevereiro de 2025, o Majorana 1 foi anunciado com oito qubits topológicos — por press release, sem os dados na mesa. O Majorana 2, agora, traz dados, mas a crítica é que eles ainda não bastam.

Quem acompanha a área não está sendo cínico ao pedir cautela. Está pedindo exatamente o que a ciência sempre pediu: que o resultado se repita longe de quem o anunciou.

Por que isso importa pra você

Se você trabalha com tecnologia, a lição prática desta edição não é “a Microsoft mentiu” nem “a computação quântica chegou”. É aprender a separar o que está provado do que está alegado dentro do mesmo anúncio — e essa habilidade vale para qualquer release de big tech que vier pela frente.

O ganho de coerência parece real e é uma conquista de engenharia de materiais e física do estado sólido nada trivial. A tese topológica, que é o que justificaria a vantagem da Microsoft sobre Google e IBM, segue em aberto. As duas coisas convivem no mesmo papel, e quem só lê a manchete leva uma das duas para casa.

É aqui que entender a física por baixo deixa de ser luxo acadêmico. A diferença entre “tempo de coerência” e “qubit topológico” é a diferença entre saber o que comemorar e cair no hype. Quem domina os fundamentos lê o anúncio do jeito certo. Quem não domina, repete o número.

O Majorana 2 vai virar uma de duas histórias. Ou outros laboratórios reproduzem o resultado e ele entra para a linha do tempo da computação como o momento em que o qubit topológico saiu da teoria. Ou ele se junta ao capítulo de 2021 como mais um anúncio que não sobreviveu ao escrutínio. Por enquanto, a resposta honesta é a mais desconfortável: ainda não dá para saber. E reconhecer isso, em vez de torcer por um lado, é a parte mais científica de tudo.

Na próxima quarta: o que muda quando a IA para de “completar texto” e passa a raciocinar por etapas — a virada agêntica, decifrada.

Fontes: SiliconANGLE · Scientific American · Science · Physics World · IEEE Spectrum.

Fontes

  • SiliconANGLE
  • Scientific American
  • Science (AAAS)
  • Physics World
  • IEEE Spectrum
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